Quando Sudan Archives entra em cena com seu violino, não espere delicadeza meramente decorativa nem virtuosismo comportado. Nas mãos mágicas de Brittney Denise Parks, esse instrumento pode virar percussão, baixo, ruído, gancho pop ou uma pequena orquestra construída em tempo real. Em seu trabalho, tradição e tecnologia não ocupam lados opostos: se retroalimentam, até que já não seja possível separar o que veio de um instrumento de séculos atrás e o que nasceu dentro de uma máquina.

É justamente essa combinação que a artista traz ao Brasil em setembro. Sudan Archives integra o domingo do Balaclava Fest, dia 27, no Tokio Marine Hall, e permanece em São Paulo para um show solo no Cine Joia, no dia 28. Duas oportunidades bastante diferentes, embora igualmente imperdíveis, de assistir a uma artista que fez da constante reinvenção seu método de trabalho.
Uma mente inquieta e curiosa
Nascida em Cincinnati, nos Estados Unidos, Brittney se interessou pelo violino ainda na infância, depois de assistir a uma apresentação do instrumento na escola. Sem uma formação conservatorial contínua, aprendeu muito pela escuta e pela experimentação, tocando também na igreja. Anos depois, incomodada com a ideia de que o violino deveria obedecer apenas ao repertório clássico ocidental, começou a procurar outros caminhos.
Mas foi fuçando na internet e no YouTube, como todo bom adolescente cronicamente online dos anos 2000, e também em livros e em arquivos de pesquisa, que encontrou violinistas do Sudão, de Gana, da Etiópia e tradições de instrumentos de corda da África Ocidental. Em vez da postura rígida que costumava acompanhar o violino, Parks descobriu performances rítmicas, corporais e próximas da dança. Ao mesmo tempo, frequentava a cena eletrônica de Cincinnati, fascinada por drum machines, sintetizadores e pela possibilidade de criar mundos inteiros com poucos equipamentos.
O nome Sudan Archives resume esse processo. “Sudan” surgiu como um apelido sugerido por sua mãe durante a adolescência e ganhou novo sentido quando Brittney conheceu as tradições musicais da região. “Archives” veio do hábito quase obsessivo de pesquisar gravações, documentos e estudos de etnomusicologia. Mais do que um personagem, o nome revela a lógica intrínseca de sua música: vasculhar histórias negras, deslocá-las de contextos engessados e fazê-las conversar com o presente e o futuro.
Uma carreira independente, mas nunca isolada
Ao se mudar para Los Angeles aos 19 anos, Brittney levou poucas roupas, um violino e um iPad no qual produzia batidas. Os primeiros experimentos nasceram no quarto, combinando loops, vozes, cordas e recursos digitais sem esperar autorização de uma banda, de um estúdio ou de uma instituição. O espírito DIY nunca desapareceu, mesmo depois de sua entrada para a Stones Throw Records, selo independente conhecido por abrigar artistas como J Dilla, Madlib e NxWorries.
Sudan Archives lançou o EP homônimo em 2017 e aprofundou sua linguagem em Sink (2018). Já o primeiro álbum, Athena (2019), apresentou uma artista capaz de reunir R&B, hip-hop, folk e arranjos de cordas sem transformar nenhuma dessas referências em simples acessório. O violino não estava ali para “sofisticar” a produção, mas sim como uma espécie de “centro nervoso” dela.
Em Natural Brown Prom Queen (2022), essa pesquisa ganhou mais corpo, humor e confiança. Um disco de várias nuances que fala sobre identidade negra, feminilidade, desejo, raízes familiares e as contradições de voltar para casa sem ser mais a mesma pessoa. Faixas como “Selfish Soul” e “NBPQ (Topless)” também deixaram evidente uma dimensão importante de seu trabalho: Sudan Archives não constrói apenas músicas, mas personagens complexos, imagens e maneiras diferentes de ocupar o palco.
THE BPM: coração humano dentro da máquina
Lançado em 2025, THE BPM empurra essa autonomia diretamente para a pista de dança. O terceiro álbum mergulha no house de Chicago, no techno de Detroit, no drum and bass e em diferentes vertentes da música eletrônica, sem apagar a irregularidade que sempre tornou sua produção tão pessoal. Os graves são pesados, as batidas parecem à beira do excesso e, por baixo da euforia, existe um disco atravessado por término, ansiedade e desejo de movimento.

É nessa fase que surge Gadget Girl, alter ego tecnológico criado por Sudan Archives. Munida de violino elétrico, pedais, loop station e outros equipamentos, ela assume uma versão ampliada de si mesma. A tecnologia não aparece como substituta da criação humana, mas como ferramenta de liberdade que aumenta o que seu corpo consegue fazer.
Ao vivo, essa ideia transforma o show em algum ponto entre rave, ritual e peça futurista. Sudan toca, canta, produz loops, opera máquinas e conduz a plateia sem depender do formato tradicional de uma banda.
Dois encontros com Sudan Archives em São Paulo
No domingo, 27 de setembro, Sudan Archives divide a programação do Balaclava Fest com DIIV, Beach Fossils, Wednesday, High Vis, Winona Riders, Adorável Clichê e Budang. O festival acontece no Tokio Marine Hall, com ingressos individuais para cada dia e opção de combo para a programação completa. Ingressos para o Balaclava Fest – em até 10x sem juros – clicando aqui.
Já na segunda-feira, 28, a artista assume o Cine Joia em uma apresentação solo, com abertura da casa às 20h e show marcado para as 21h30. O sideshow conta ainda com apoio da Zig, nome conhecido da noite LGBTQIA+ paulistana e de uma pista pop feita para gays e garotas – uma parceria bastante coerente para receber uma artista que encontra liberdade justamente onde corpos, máquinas e música podem escapar das regras. Ingressos para o show solo clicando aqui.
Entre o palco de um festival e a proximidade de uma casa como o Cine Joia, não faltam chances de conhecer Sudan Archives ao vivo. A escolha agora é simples: entrar por uma das portas ou garantir as duas.

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