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entrevista | barragem volta com “Pinole” após odisseia na califórnia

Na ativa desde 2022, a banda paulistana Barragem consolidou sua reputação no underground com uma rica colagem de gêneros que viajava do ska ao hardcore e metal. No entanto, foi após cruzar as fronteiras brasileiras para uma mini-turnê auto-organizada e financiada na Califórnia, em setembro de 2024, que os alicerces do trio mudaram permanentemente.

Após um hiato intencional de lançamentos e shows ao longo de 2025, Barragem retorna com “Pinole”. Resultado prático e estético desta escolha, o novo single – acompanhado de clipe que registra a trajetória coletiva vivenciada na costa oeste norte-americana – é uma suntuosa e madura peça de art-rock que incorpora arranjos sinfônicos de cordas, metais e trompete à crueza já característica do grupo.

Montagem analógica usada como capa do single “Pinole”.

No dia 29 de maio, Barragem promoveu um evento presencial e intimista (teve até mini-show) na Casa Lab para apresentar sua nova fase à um grupo . O Indie Influx não pôde estar presente, mas Isabella, Guilherme e MX arrumaram um tempinho para conceder uma entrevista super especial.

Em uma longa, descontraída e densa conversa, o trio abriu as portas de seu processo criativo, destrinchou as frustrações com a cena paulistana, explicou o conceito de “desplataformização” e revelou como uma afinação inspirada no banjo tradicional americano redefiniu a identidade musical do grupo. 

“As redes sociais se mostraram o pior lugar do mundo para viver a música se o seu objetivo for ser feliz. Decidimos que não queremos ser palhaços de algoritmo; queremos nos conectar de forma humana, afetiva e real.” – Guilherme

O que realmente faz sentido

A decisão de mergulhar nesse “silêncio estratégico” em 2025 surgiu exatamente no momento em que a banda parecia ganhar certa tração no circuito alternativo de São Paulo. Era um consenso entre eles que o desgaste psicológico e a pressa mercadológica haviam atingido um teto insustentável. Ao mesmo tempo, as vidas pessoais estavam em turbilhão: transições de carreira, desemprego e os vários caminhos da vida adulta dividiam espaço com a exaustiva rotina de tentar existir enquanto banda nessa era digital. 

Foto: Divulgação/Arquivo pessoal da banda.

Ao serem questionados sobre produção de conteúdo para as redes sociais, Guilherme discorre:  ” […] a gente se sentia bobo fazendo aquilo e ficava um conteúdo forçado. Quando dava algum resultado e saía da nossa bolha, até era divertido, mas na maior parte do tempo o esforço não se justificava. Estávamos gastando uma energia absurda que deveria estar canalizada na música”. 

Ainda sobre o assunto, ele comenta sobre uma “paranoia constante de desaparecer se você escolhe o silêncio” e diz que, nessa pira de estar sempre presente, o cuidado com a mensagem que se quer transmitir com a arte pode acabar prejudicado. Esse cansaço coletivo pavimentou o conceito de desplataformização, uma bandeira que a Barragem parece querer empunhar com vigor. Longe de propor o abandono utópico do ecossistema digital, eles defendem um recuo consciente do papel de refém das dinâmicas das Big Techs. 

MX complementa o raciocínio ao falar sobre buscar outras formas de atingir o público e ainda estar alinhado aos seus valores: “Não queremos ser hipócritas e fingir que as plataformas não existem. Mas percebemos que existem outras formas de chegar nas pessoas, de maneira diferenciada, educada e humana. Passamos a observar o cenário de fora e decidimos que, se não gostamos desse modelo de exposição vazia, nós simplesmente não vamos aderi-lo”. 

Voltar para a bolha paulistana foi um choque

Se o isolamento de 2025 trouxe clareza para organizar as novas ideias, a turnê total DIY (do it yourself) de setembro de 2024 pela Califórnia foi o que funcionou como catalisador de uma nova visão de mundo. Financiada com recursos próprios, a jornada/aventura do trio incluiu marcos simbólicos indeléveis, como uma apresentação histórica no lendário clube punk 924 Gilman

Barragem posando em frente ao 924 Gilman. Foto: Divulgação/Arquivo pessoal da banda.

Mas muito além dos palcos, foi a engrenagem comunitária vivenciada por lá que provocou um choque de realidade nos músicos paulistanos. Segundo eles, foi uma verdadeira aula de como existir enquanto “independente” dentro de uma comunidade que faz a coisa funcionar para todos que querem somar. 

“A independência real na arte não tem nada a ver com o discurso neoliberal do individualismo ou do empreendedorismo. Ela só é possível se houver uma comunidade sólida sustentando a base.”

Individualismo x Independência

Ao entrarmos no assunto, Guilherme relembra um questionamento que levava consigo e que compartilhou com os colegas de banda: como era possível gerar tantas bandas seminais de estilos completamente diferentes e fazer a coisa acontecer para todas elas? Estando lá e vivendo na pele, ele descobriu que a resposta não tem a ver com proximidade geográfica de grandes gravadoras, mas sim com uma rede de apoio mútuo. 

O baterista relata com entusiasmo os bastidores da experiência vivida por lá: “Havia pessoas que mal nos conheciam e nos abrigavam em suas casas, nos levavam para oficinas nos fundos de seus quintais para ensinar a confeccionar nosso próprio merchandising em serigrafia para termos o que vender nos shows, que nos ajudaram até a conseguir a nossa comida, sabe? É um senso de comunidade onde a música está atrelada ao ativismo e à colaboração orgânica. O sucesso comercial, para eles, é uma mera consequência do barulho que a comunidade já faz junta”. 

Por outro lado, quando aterrissou de volta na capital paulista, o trio se deparou com um contraste amargo. A frustração pós-turnê revelou as fraturas do underground local, marcado, segundo eles, por um isolamento individualista – as “panelinhas” inacessíveis.

Segundo eles, em São Paulo, muitas vezes a sensação é de que o público do show se resume aos seus amigos e aos seus pais, e falta aquele interesse genuíno do pós-show, de conversar, propor parcerias, ajudar na montagem dos equipamentos. O trio reforça, porém, que existe um esforço produtivo na nossa cena jovem, sim, mas as comunidades são fechadas. 

Esbarrando no assunto das redes sociais mais uma vez, MX reforça a importância de fazer shows num período sombrio em que bandas/artistas criados com IA dominam os streamings e comenta: “[…] as telas de internet fragmentaram os laços sociais. Eu conheci o Guilherme pela internet, embora a gente tenha frequentado a mesma escola e a mesma faculdade. Isso ilustra como nossa geração cresceu isolada”. 

Mais sobre “Pinole” 

Se antes os lançamentos se dividiam de forma rígida, segundo eles mesmos relatam, entre “uma música do Marcos” ou “uma música do Guilherme” com pitacos pontuais, o novo single celebra o amadurecimento técnico e a fusão de mentes e das diferentes visões de uma mesma experiência. 

Barragem tocando na Doll Hut. Foto: Dilvugação/Arquivo pessoal da banda.

“Eu estava em uma seca criativa terrível, sem saber para onde ir”, conta o guitarrista. “Naquele mesmo ano, comecei a brincar com o banjo americano de cinco cordas e fiquei fascinado com o fato de que a corda que deveria ser a mais grave é, na verdade, uma corda finíssima e aguda. O Guilherme me sugeriu aplicar essa lógica subversiva na guitarra. […] Aí eu comecei a experimentar afinações híbridas, criei uma base, gravei e acabei esquecendo o arquivo no computador.”

Meses mais tarde, ao resgatar a demo, a composição continuou colaborativa, funcionando quase como que um pingue-pongue.”Ficou uma música que não é de um, nem de outro; ela pertence inteiramente à Barragem”, definem.

O resultado final reúne violino, viola, violoncelo e arranjos de trompete à densidade alternativa do grupo, convocando, com sutileza, elementos de suas influências mais diversas. “Hoje a gente está ouvindo coisas que talvez nem apareçam diretamente nas músicas”, conta Guilherme. “Mas elas mudam a forma como a gente pensa a música.”

O que esperar para 2026

Com o videoclipe de “Pinole” no mundo e servindo como um diário de bordo visual da odisseia DIY vivida na gringa, Barragem projeta um 2026 focado na construção de seu novo EP. A produção deste, inclusive, traz uma novidade empolgante para o trio: um processo totalmente independente, feito pelos próprios membros. 

Foto: Divulgação/Arquivo pessoal da banda.

Nos últimos anos, os integrantes Guilherme e MX, responsáveis pelas composições, ressaltam o quanto mergulharam mais fundo em produção musical, experimentação digital e novas formas de criar. Essa abertura para novas possibilidades parece ser o principal combustível da Barragem em 2026. 

Um futuro que está logo ali, repleto de planos e ideias em fase de execução. Sem pressa, sem submissão aos algoritmos e com os pés firmados nos valores dos quais não abrem mão. 

Ficou curioso? Ouça já “Pinole”

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