Cat Lover, de Itajubá, sul de Minas Gerais, é um projeto que começa solitário, quase enclausurado em controle artístico e introspecção, e que aos poucos se abre para o coletivo, sem perder a aspereza, o ruído e a estranheza que sempre estiveram no centro da proposta.
Nesta entrevista, os músicos Matt, Helena, Juliana e KAII olham para trás para entender o próprio presente e detalham processos, referências e expectativas que ajudam a situar o projeto dentro da cena independente brasileira. Confira a seguir e saiba mais sobre Cat Lover.
quem é cat lover?
O projeto nasce em meados de 2024 pelas mãos de Matt Rennó, músico que já havia passado por outros projetos e que, naquele momento, precisava de autonomia total para entender o que queria dizer artisticamente. “Mesmo sendo solo por muito tempo, eu sempre quis que a Cat Lover fosse uma banda banda”, ele explica. O formato individual, portanto, foi uma necessidade de processo naquele momento: controlar gravação, composição, estética e direção sonora de um álbum que ainda estava sendo gestado.
Esse álbum é Active Life, lançado no último dia 24. Um disco que carrega guitarras ruidosas, estruturas que flertam com o alternativo noventista e uma urgência emocional sempre presente em suas letras. Ainda assim, o que hoje se ouve já não pertence (tanto) apenas a Matt.

Quase no final das gravações, ele convida a prima Helena para assumir o baixo da banda. A partir daí, Helena chama Adinan e Juliana – amiga de infância – para guitarra e bateria, respectivamente. Pouco depois, com a saída de Adinan, entra KAII (Kaic), completando a formação atual.
Juliana faz questão de pontuar esse momento de transição:
“O álbum é, de fato, quase 100% uma criação do Matt. Ele vem de uma época anterior à banda, quando ainda era tudo solo. Agora, como banda, todo mundo tenta contribuir, principalmente com letras e ideias novas.”
Kaic chega como uma peça que acelera esse movimento coletivo. Segundo Matt, ele já entrou “somando muito”, com um repertório próprio de composição e uma abordagem mais experimental. E a promessa para os próximos lançamentos é clara: menos centralização e mais fricção criativa. Letras e arranjos feitos a oito mãos.
Entre o inglês, o português e a busca por uma identidade
As letras de Active Life são majoritariamente em inglês, algo que, segundo a banda, não é exatamente uma decisão estética definitiva, mas um reflexo do momento em que o projeto foi criado.
Matt associa diretamente essa escolha ao seu período de formação como músico:
“Quando comecei a compor, eu estava me descobrindo enquanto músico. Ouvi muitos clássicos, como Nirvana e Radiohead, e depois fui para as inspirações das inspirações, tipo Pixies e Dinosaur Jr. Isso me deu muita bagagem gringa.”
Helena reforça que há, sim, interesse em experimentar o português no futuro. Kaic, por sua vez, vai um pouco além: a maioria das coisas que ele escreve já nasce na língua materna. Segundo eles, o contato crescente com a nova cena do rock brasileiro, com nomes como Bella e o Olmo de Bruxa, Chococorn, Metonímia, Quem é Você, Alice?, A Terra Vai se Tornar um Planeta Inabitável, vem abrindo novas possibilidades criativas.
“Agora eu me entendo mais como um artista brasileiro dentro dessa cena independente. Isso muda, sim, a forma de criar”, resume Matt.
Ruído como linguagem
Sonoramente, a banda não esconde suas obsessões. Matt assume o gosto pelo noise e pela experimentação:
“Isso vem muito das guitarras do Sonic Youth e do Radiohead. Pixies e Radiohead são minhas maiores inspirações na hora de criar guitarras. E o Nirvana, na forma como eu quero que elas soem.”
Helena constrói o baixo a partir de referências tão sólidas quanto diversas: Geezer Butler, Paz Lenchantin e Kim Gordon. Uma base que equilibra peso, groove e uma certa liberdade rítmica que escapa do óbvio.
Kaic, por sua vez, vem de um universo distinto: Lo Borges, Beto Guedes, música brasileira setentista – mas agora tenta tensionar isso dentro de uma estética mais barulhenta e experimental. Já Juliana talvez seja o elemento mais inesperado da equação: suas referências passam pela bateria do Xdinary Heroes, banda sul-coreana, o que pode adicionar uma camada rítmica menos previsível ao som da Cat Lover em trabalhos futuros ou na forma como a banda vai soar ao vivo.
Referências que extrapolam a música
A Cat Lover não se alimenta apenas de discos. Helena cita Edgar Allan Poe como influência direta em suas composições – uma melancolia sombria que atravessa sentimentos e atmosferas. Juliana busca no cinema boa parte de suas referências emocionais: “os filmes ajudam a ilustrar sentimentos de forma mais clara”, diz.
Matt vai ainda mais longe, citando “Diário de um Banana“, “JoJo’s Bizarre Adventure” e o trabalho visual de Stanley Donwood (artwork do Radiohead) como referências estéticas: coisas coloridas, carregadas de informação, quase caricatas. Não à toa, Tally Hall – especialmente o álbum Good & Evil – surge como ponto de convergência entre Matt e Kaic, não apenas como influência sonora e estética, mas como impulso inicial para fazer música.
Kaic ainda menciona John Darnielle (The Mountain Goats) e o livro “Wolf in White Van” como guias de método: capturar a ideia no momento em que ela nasce, sem polir demais, sem perder o impulso – coisa que ele tem feito desde os nove anos de idade.
Criar espaço para existir
Falar de Cat Lover é também falar de Itajubá. Matt se vê como um dos pioneiros de uma cena local, embora reconheça que ela ainda é pequena e carece de espaços. Hoje, mais do que se inserir em uma cena, a banda sente que precisa criá-la.
Existe até a ideia de um mini festival independente para movimentar a região. Uma estratégia que não é só sobre música, mas sim é da sobrevivência cultural como um todo. Não por acaso, Matt mantém outros projetos paralelos, do post-punk ao emo caipira, como forma de explorar linguagens e manter a chama acesa.
Expectativas que não passam por números
Quando perguntados sobre expectativas para o lançamento de Active Life, a resposta foge de streams, métricas ou algoritmos.
“Minha maior expectativa era só lançar”, diz Matt. “Colocar essas composições no mundo.”
Juliana completa:
“Que isso seja o começo de algo que permita a gente continuar tocando e criando junto. Não por números, mas por diversão.”
Ainda sem previsão de shows – os ensaios começaram há pouco tempo -, a Cat Lover olha para 2026 com uma meta simples e rara: diversão. Crescer, sim, mas sem transformar isso em métrica de valor, e entender que, no underground, permanecer é mais radical do que explodir. O foco está no processo, na troca e na possibilidade de criar coletivamente algo que antes era solitário.
O nome da banda, inspirado no artista britânico Louis Wain e sua obsessão por gatos antropomórficos, parece sintetizar bem esse espírito: há afeto, estranheza, exagero e humanidade em tudo que a Cat Lover faz.
Active Life é um ponto de partida para uma banda que encontra um novo fôlego no coletivo e ainda está aprendendo a ocupar o próprio espaço. Ou melhor: a construí-lo do zero.
Ainda não conhece? Ouça nas plataformas digitais:

Deixe um comentário