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entrevista | A locomotiva do som autoral no vale do paraíba: Ferrovia Estúdio faz dois anos de história

O Ferrovia Estúdio nasceu de um incômodo pessoal e de uma memória ainda presente: a falta total de estrutura para bandas independentes em Lorena e região. “[…] Não tinha espaço, não tinha onde ensaiar, não tinha onde gravar, não tinha onde tocar. E, principalmente, não tinha perspectiva”, relembra Marcelo Bastos, músico, produtor e idealizador do espaço.

Depois de 15 anos de estrada com a banda Lo-Fi e de ter acumulado experiência em gravação, produção e turnês pelo Brasil e exterior, Marcelo voltou a Lorena com um objetivo claro: “Oferecer para os outros aquilo que eu não tive.” Com um espaço pequeno, mas com muito conhecimento acumulado, o Ferrovia começou a operar e logo se tornou mais do que um estúdio: virou um ponto de encontro, experimentação e formação cultural.

Cena independente no interior: construir onde diziam que não havia nada

“Na época, muita gente falava: ‘não vai dar certo, Lorena não tem cena, ninguém vai colar’. Mas eu sabia que tinha gente que curtia, só tava tudo disperso”, relembra Marcelo. A aposta deu certo. Hoje, bandas e artistas de São José dos Campos, Sul de Minas, Sul Fluminense, da capital e até do exterior vêm até Lorena para gravar, tocar e circular no espaço.

Foto: Talita Maya (@talittatooo)

O Ferrovia Estúdio se tornou, em pouco tempo, um polo regional da música independente, e prova de que é possível fomentar uma cena longe dos grandes centros. “Hoje vejo gente de outras cidades vindo pra cá, do mesmo jeito que eu tinha que sair pra buscar isso lá fora. Isso é muito gratificante.”

O nascimento do Fora dos Trilhos

Entre os maiores legados do Ferrovia até agora, está o nascimento do Festival Fora dos Trilhos. Com duas edições já realizadas, o evento se consolidou como espaço de visibilidade para bandas autorais da cena underground. “A primeira edição surgiu com apoio da Lei Paulo Gustavo. A ideia era fazer rolês gratuitos e ainda pagar cachê pras bandas. Isso é raro. A gente conseguiu usar recurso público pra fazer cultura de verdade: com acesso e valorização do artista”, explica Marcelo.

Desde então, o Fora dos Trilhos já trouxe nomes internacionais como Hexis (Dinamarca), Snailmate (EUA) e Extreme Rage (Paraguai). O festival também recebeu nomes como Black Pantera, Sugar Kane e artistas locais de grande relevância na nova cena do rock independente. “Tem gente que fala: ‘foi o melhor rolê que já fui’. Isso vale muito. E mostra que o interior tem potência, sim.”

Foto: Talita Maya (@talittatooo)

Infraestrutura, acolhimento e ética como base

Ao falar da gestão do estúdio, Marcelo é direto: “Tocar no interior é diferente de tocar na capital. Aqui a gente precisa ter noção de realidade. Não dá pra cobrar o mesmo cachê que você cobra em São Paulo. Mas a gente sempre tenta pagar, e a gente consegue. Muitas bandas receberam o primeiro cachê delas aqui.”

Além da questão financeira, há um cuidado visível com quem pisa no espaço. “Tem banda gringa que ficou impressionada com o Ferrovia. A galera acha que lá fora é tudo perfeito, mas não é. O diferencial aqui é o cuidado: som bom, lugar pra dormir, comida que respeita todo mundo, desde veganos até quem tem restrições. Isso faz diferença”.

Cena, memória e cultura viva

Marcelo faz questão de lembrar que Lorena está no Vale do Paraíba, um meio do caminho entre São Paulo, Rio de Janeiro e Sul de Minas. Por isso, o Ferrovia se consolidou como um ponto estratégico de turnê: “Às vezes é melhor tocar em Lorena do que ficar num day-off em São Paulo.” Isso é sobre fazer parte de um circuito real, não só idealizado.

Foto: Talita Maya (@talittatooo)

Mais do que shows e gravações, o Ferrovia Estúdio se tornou um arquivo vivo da produção musical do Vale do Paraíba. “O que a gente tá construindo aqui vai ficar. É um espaço que atravessa gerações”, afirma Marcelo.

Ele lembra de artistas locais que vieram de contextos difíceis e encontraram no estúdio um lugar de criação. “O Gabrielzinho, por exemplo, é um artista preto, periférico, deficiente visual, e disse que aqui foi o melhor rolê que ele já fez. Isso me emociona de verdade. É isso que vale.”

Foto: Talita Maya (@talittatooo)

A união faz a força

Para Marcelo, o Ferrovia não é só um espaço de música. É um organismo. Um ecossistema que só funciona quando várias funções se reconhecem como parte essencial do todo. No fim da entrevista, ele faz questão de apontar a importância de jornalistas, fotógrafos, mídias alternativas e documentaristas na preservação da cena. “O cenário independente é feito também por quem registra, divulga. […] O jornalismo independente tem um papel enorme nisso.”

Ainda falando sobre a mesma questão, um dos pontos mais sensíveis da fala de Marcelo é a constatação de que muitas bandas não existem mais simplesmente porque não houve espaço para que existissem.

“Tem estilos que a gente queria muito trazer pro Ferrovia, mas não tem mais banda fazendo. Por falta de espaço, por cansaço, por falta de perspectiva. E aí esses músicos vão tocar em bar, em evento de prefeitura… e tudo bem, isso paga a conta. Mas a cultura autoral desaparece.”

É por isso que o estúdio tem bandeira: fomentar a música autoral, alternativa e independente não só como estilo, mas como escolha política e cultural.

Dois anos de Ferrovia Estúdio: e o futuro?

O estúdio segue firme como uma das poucas casas do interior paulista dedicadas à música autoral alternativa. Os planos para os próximos anos incluem novas edições do Fora dos Trilhos, ampliação da agenda de shows e mais intercâmbio com artistas de fora do eixo.

Mais do que manter a chama acesa, o Ferrovia quer ver (e fazer) o trem andar. E com agentes como Marcelo Bastos nos trilhos, não falta combustível e nem coragem para fazer isso acontecer.

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