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entrevista | diy ou morrer tentando: measyou se reinventa em “eu sinto muito!”

“Eu não sou uma banda emo”: entre o fim de uma fase, feats de peso e uma leitura afiada da cena independente, Lucas Mateus fala sobre controle criativo, revolta, verdade e o desejo de dominar tudo em 2026.

Foto: divulgação.

Às vésperas do lançamento de Eu Sinto Muito!, novo álbum de measyou, Lucas Mateus se reposiciona de forma clara, quase radical. Não é mais sobre caber numa cena, num rótulo ou num algoritmo, mas sim sobre assumir controle total do próprio trabalho, mesmo que isso signifique recomeçar e se indispor.

Depois de um primeiro disco que colocou o nome measyou em evidência no emo independente, Lucas entendeu que repetir fórmulas, ainda que funcionais, não era suficiente para o seu projeto. O novo álbum, com oito faixas e participações de Lucas Silveira (Fresno), THEREALBIGRIC e Israel Castro (Twin Pumpkin), aponta para um território mais amplo, onde o emo ainda existe, mas não dita mais as regras.

Em uma entrevista excluisiva, Lucas Mateus conversa com o Indie Influx em um momento-chave: o fim de um ciclo, o início de outro e a sensação de que, agora, o projeto finalmente reflete quem ele é, sem mediações. Entre reflexões sobre estética, autonomia, feats, mercado e cena independente, ele deixa claro: Eu Sinto Muito! não é só um disco, mas também uma tomada de posição.


O nascimento do measyou e a necessidade de ruptura

O measyou surge menos como um plano mirando no sucesso e mais como um incômodo. Lucas conta que sempre fez música, teve banda desde muito novo, mas chegou a um ponto de exaustão criativa. “Eu já tava meio de saco cheio de trampar com outras pessoas”, explica. A vontade era experimentar sem precisar negociar cada decisão.

Essa liberdade, segundo ele, dificilmente existe dentro de uma banda tradicional. “Hoje em dia tem muita banda boa, não é difícil fazer uma banda boa. Mas pra quem quer experimentar, não acho que nem sempre tem muito espaço pra fazer isso estando numa banda.” O measyou nasce, então, como essa possibilidade de ir para outros lados – mais emo, sim, mas também mais aberto e menos previsível.

Outro ponto decisivo foi o afastamento gradual da cena paulistana. Com o boom do emo revival, Lucas passou a observar um movimento que o incomodava: a tentativa constante de resgatar o passado, de soar como referências específicas, de repetir estéticas já consolidadas. “O pessoal fica numa pira de ressuscitar as coisas, de querer soar como X e Y. O measyou foi minha chance de ir pelo caminho contrário.”, ele explica.


Identidade, estética e o peso da imagem

Com o crescimento do measyou, vieram também os olhares da cena. O reconhecimento de nomes como a Fresno ajudou a ampliar o alcance do projeto, mas também trouxe questionamentos internos. Lucas percebe que, no começo, acabou sendo influenciado por essa validação externa. “Achei que tinha uma ‘fórmula’ pra parada.”, ele relembra ao falar da época em que participava mais da cena da capital paulista.

O problema, segundo ele, é que essa fórmula gera uniformidade. “Era tudo muito parecido. Levanta até a questão de ser uma cena muito branca, todo mundo usando as mesmas roupinhas, das mesmas marcas, a mesma estética.” Essa constatação foi fundamental para a decisão de adiar o novo álbum e reconstruir o projeto visual do zero.

Eu Sinto Muito! marca essa virada. A identidade visual deixa de ser um complemento e passa a ser parte central do discurso. Lucas faz questão de assumir esse processo quase artesanal: criar com amigos que vêm pra somar em momentos pontuais, investir em equipamentos próprios, gravar sozinho e controlar cada etapa. “Eu não acho que posso dizer que criei, efetivamente, nada diferente ainda, mas eu estou no processo. Mas estou criando, e esse álbum inicia isso.”

Para ele, imagem não é somente a embalagem do projeto, e sim uma forma de linguagem. E, nesse novo momento, a linguagem precisava mudar junto com o som.


Produção, audiovisual e uma relação conturbada com a arte

Além da música, Lucas também tem se aprofundado no audiovisual, assinando direções criativas e trabalhos para outros artistas. Curiosamente, ele não romantiza esse contato constante com a arte. “Minha relação com a arte não é nada saudável”, confessa, rindo, mas sem suavizar demais o peso da frase.

Produzir música para outros artistas ainda não é algo que ele encara com segurança. Quando a criação vira obrigação, perde parte do encanto. Ainda assim, ele se permite transitar – produz rap, trap, assina conceitos visuais – sempre de forma pontual, quando “dá na telha”.

Esse cansaço também informa o novo disco. Eu sinto muito! nasce de um lugar mais leve no processo, ainda que emocionalmente denso no resultado.


Cena independente, Vale do Paraíba e a crítica ao comodismo

Ao falar da cena alternativa fora do eixo central de São Paulo, Lucas demonstra uma leitura afiada do território. Ele reconhece o crescimento, as turnês, o esforço coletivo, mas aponta um problema estrutural: a dificuldade de tensionar relações. “O pessoal quer sempre ser amigo demais, não sabe separar as coisas.”

Para ele, a virada só acontece quando existe coragem de sair do circuito confortável, de abrir espaço para outras estéticas e outros públicos. Ele cita exemplos que admira: Vitor Brauer e a Lupe de Lupe, Bella e o Olmo da Bruxa, Paira – artistas que entenderam o próprio trabalho e não se escoram apenas na cena.

“Você não precisa gostar de tudo, ser querido por todos”, diz. Essa lucidez atravessa o discurso inteiro de Lucas: viver de música exige menos idealização e mais entendimento do próprio meio.


O fim de uma fase – e por que isso importa

O live session com Saci, anunciado como um “fim”, gerou dúvidas sobre o futuro do measyou. Hoje, Lucas deixa claro: nunca foi sobre um fim do projeto, mas sim de abandonar um modelo de criação que já não funcionava.

Ele descreve Toda Tristeza Que Habita em Nossos Quartos (2024), seu primeiro álbum, como um processo quase traumático. Dependência criativa, atrasos, frustrações. “Foi um pesadelo pra mim, e eu nunca mais quero estar nessa posição.” A partir daí, decidiu que não queria mais um projeto condicionado às expectativas alheias.

No novo disco, mesmo com participações, o controle permanece com ele. “Eu posso até trazer uma banda, mas não quero depender da opinião criativa dos outros pra fazer acontecer.” O resultado, segundo os feedbacks que tem recebido de pessoas que já escutaram parte dos novos trabalhos, é um measyou mais reconhecível do que nunca, justamente por ser mais pessoal.


Feats, revolta e o desejo de dominar 2026

Se Eu Sinto Muito! representa autonomia, os feats ampliam o alcance da mensagem. A participação de Lucas Silveira, da Fresno, é tratada como um marco. “É algo que eu sei que vai abrir muitas portas.” Mais do que isso, é um encontro simbólico: colocar seu artista favorito cantando sobre algo profundamente pessoal, como o vício em medicamentos, reafirma o compromisso com a verdade e a vontade de ressoar muito além da tristeza cantada em trabalhos anteriores.

O disco também carrega revolta, mesmo quando soa mais “feliz”. É um acerto de contas com espaços que Lucas decidiu abandonar e com posturas que ele mesmo já teve. “Agora eu tô cantando sobre experiências muito recentes da minha vida e sobre como algumas pessoas são otárias”, diz, sem rodeios.

O primeiro single, “Jogo Sujo! (Que Se Foda)”, já disponível para pre-save, funciona como um aviso. E o plano é claro: lançar, emendar, construir, ocupar. “A ideia é dominar tudo em 2026”. Não como quem quer vencer um jogo, mas como quem finalmente entendeu as próprias regras.

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