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especial | veio sem maionese, mas pedro lanches tem o molho

Disco lançado no finzinho de 2024, mas com energia de quem nasce sempre no agora, comemora um ano como retrato cru, lúcido e deliciosamente juvenil de ser quem se é.

Capa de veio sem maionese. Foto de Mariana Blum.

Não é sempre que primeiros encontros conseguem causar impressões tão positivas como acontece com veio sem maionese. Para quem já acompanhava Pedro desde sua trajetória lá no Mato Grosso do Sul, essa confiança talvez não surpreenda tanto. Criando há mais de dez anos, migrou para São Paulo, mergulhou ainda mais fundo no underground com a Funérea e encontrou sua própria rota na caótica capital paulista o solo fértil que empurra artistas para novos começos. E foi daí que floresce o sólido veio sem maionese, que parece vir de um lugar muito íntimo, quase secreto – dessas gavetas internas que a gente só abre quando está prestes a explodir.

pedro lanches na Jai Club durante a festa de lançamento do EP Rewind, da banda Vício. Foto por Melissa Buzzatto (@kindafeelike).

Logo de cara, dá para sentir que pedro não está tentando reproduzir nada. É claro que existem referências muito claras, uma fagulha de emo, algo de shoegaze que se dissolve e outras coisas aqui e ali. Mas o que poderia virar colagem vira identidade, logo de cara. Pedro tece esta identidade sem medo de deixar as costuras aparentes, e o diferencial mora justamente aí.

A produção de Gustavo Bertoni (Scalene) ajuda a dar corpo e densidade ao disco sem nunca engessar suas peculiaridades e vulnerabilidades. O trabalho conjunto, segundo o próprio Pedro revela em entrevistas como a concedida ao portal Desconhecido Juvenal, foi um período “engrandedecedor”, desses encontros criativos que redefinem todo o rumo. E isso fica muito claro quando paramos para ouvir: há rigor, há experimentação e uma vontade quase adolescente (no melhor sentido) de ver até onde a sua música pode ir.

pedro lanches na Jai Club durante a festa de lançamento do EP Rewind, da banda Vício. Foto por Melissa Buzzatto (@kindafeelike).

As letras, que são o centro gravitacional do projeto, são escritas sem floreio desnecessário, mas com um dom natural de achar imagens certeiras para falar de amor, decepção, solidão, raiva, esperança e essa coisa meio confusa que é se descobrir adulto no mundo, ainda mais num cenário como o que ele está inserido. São músicas que mapeiam o caos emocional dos 20-e-poucos anos com uma sinceridade nada forçada, e que te lembra, em vários momentos, de sensações que você nem sabia que tinha guardado.

Faixas como “nome de banda”, por exemplo, mostram bem essa mistura de intensidade e introspecção que virou assinatura dele. Outros momentos, como “espelho”, “jantar” e “montanha russa”, ampliam esse universo e parecem olhar o mundo com aquele misto clássico de “não faço ideia do que estou fazendo, mas talvez esteja tudo bem”. É bonito ver um artista tão jovem abraçar a própria vulnerabilidade com coragem. Pedro é direto, sincero e, por isso mesmo, forte, dominando, com maestria, essa ambiguidade que é ser um jovem-adulto.

O álbum também brilha nas colaborações: Funérea, Ciça Moreira, Bia Balugani e Gustavo Bertoni. Tudo soa orgânico, como se cada elemento entrasse para ampliar a paleta emocional do disco, e não apenas para preencher espaço. É um trabalho baseado em contato, em convivência e em afetos.

No fim, veio sem maionese é um disco sobre atravessar a vida com verdade. Aceitar os limites, rir de si mesmo, experimentar, errar, recomeçar. E se este é o começo da fase solo de pedro lanches, é difícil não ficar curioso para o que vem depois, ainda mais agora que ele já começou a pavimentar esse novo futuro com o single “miopia”.

Por ora, veio sem maionese segue firme como um dos debuts mais interessantes e honestos que a cena independente brasileira ganhou nos últimos anos. Um retrato fiel (e muito bem executado) do caos lindo que é, simplesmente, crescer.

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