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cobertura | bôa retorna ao mundo e estreia no brasil com energia e delicadeza

A banda que atravessou o tempo e as plataformas chega ao país para um show íntimo e explosivo, transformando sua estreia brasileira em um momento único de renovação e pertencimento.

Foto por Melissa Buzzatto (@kindafeelike) em cobertura para o Indie Influx.

Uma terça-feira à noite costuma ter um gostinho de rotina – aquele meio da semana que não inspira muita coisa além da obrigação, ainda mais na reta final de 2025. Mas não foi o caso da última terça (25). No Cine Joia, o que teria tudo para ser apenas mais um dia arrastado se transformou em uma celebração improvável, calorosa e quase catártica. Um daqueles momentos que lembram que, quando as coisas estão destinadas a acontecer, elas encontram seu próprio caminho, cedo ou tarde, mesmo que esse caminho demore mais de vinte anos.

A estreia do Bôa em terras brasileiras foi uma costura delicada entre memória afetiva, redescoberta e o poder estranho – mas muito real – de uma música que se torna eterna justamente porque adormece e desperta em ciclos. É poético pensar que um hiato de décadas e uma pandemia tão sombria tenham sido parte do percurso que permitiu o retorno de Bôa.

O fenômeno que levou a banda de volta ao mundo é amplamente conhecido: o boom de “Duvet” no TikTok. A faixa, abertura do anime Lain: Serial Experiments e parte do álbum Twilight (2001), já havia tornado o grupo famoso no Japão no fim dos anos 90 e começo dos anos 2000. Mas foi apenas entre 2022 e 2023 que a canção, adormecida na memória de fãs antigos e perdida para a maioria, ressurgiu com força, atravessou gerações e trouxe ao trio original, Jasmine Rodgers (vocal), Alex Caird (baixo) e Lee Sullivan (bateria), a chance de se reunir novamente. E, com isso, reacender o que havia ficado suspenso no tempo.

Foto de Melissa Buzzatto (@kindafeelike) em cobertura para o Indie Influx.

No palco brasileiro, Jasmine não estava acompanhada pelos membros originais. Ao seu lado estavam Carlos Garcia (guitarra), Jackson Ellis Leach (bateria), Shannon Harris (teclado) e Simon Francis (baixo) – um time que sustentou a apresentação com precisão e entrega. E, apesar da formação alternada, havia algo ali que transcendeu qualquer arranjo tradicional de banda: a sensação nítida de que Jasmine carregava consigo não apenas sua própria história, mas a de um público inteiro que esperou pacientemente para ver esse momento acontecer.

Antes de Bôa assumir o palco, quem abriu a noite foi Ale Sater, vocalista do Terno Rei, que trouxe ao Cine Joia o repertório do álbum Tudo Tão Certo (2024), acompanhado por Luis Cardoso (bateria), Gabriel Arbex (guitarra) e Helena Cruz (baixo). A apresentação, conduzida no violão por Ale, tinha uma energia mais contida, quase contemplativa, mas que fez sentido dentro da narrativa da noite. O público recebeu o artista com carinho e surpresa positiva, reforçada quando Jasmine mencionou o nome do artista no palco, agradecendo pelo set delicado que antecedeu a tempestade emocional que se aproximava.

Ale Sater abrindo para Bôa. Foto de Melissa Buzzatto (@kindafeelike) em cobertura para o Indie Influx.

E então o Bôa entrou.

A abertura com “Deeply” estabeleceu, sem rodeios, o tom da noite. Vocais precisos, banda afiada e uma plateia que imediatamente pulou, gritou, se entregou. Era como ligar um interruptor coletivo. A energia não simplesmente tomou forma: ela transbordou. Jasmine, uma presença magnética, dominava o palco com um tipo de presença que não precisa forçar nada, porque já carrega tudo.

Foto por Melissa Buzzatto (@kindafeelike) em cobertura para Indie Influx.

A setlist percorreu os três álbuns do grupo: Twilight (2001), Get There (2005) e Whiplash (2023). Este último, gestado após o viral do TikTok, representa não só a volta da banda, mas um novo capítulo criativo. E o público recebeu as músicas recentes com o mesmo entusiasmo reservado às antigas, provando que um comeback não se sustenta apenas na nostalgia. Faixas como “Whiplash” e “Beautiful & Broken”, por exemplo, ecoaram pelo Cine Joia com força própria, como se já fizessem parte da memória coletiva da plateia.

Mas era impossível ignorar o brilho particular das faixas de Twilight, cada uma delas recebida com a intensidade de quem esperou duas décadas para cantar junto. O público, majoritariamente na casa dos 20–30 anos, conhecia as letras e parecia guardar nelas pedaços de si. Para muitos, era um reencontro com uma época da vida que deixou saudades; para outros, era a chance de viver ao vivo algo que só existia como mito na internet.

E então veio “Duvet”. Um dos momentos mais simbólicos da noite. Jasmine a introduziu com a gratidão que repetiu ao longo da turnê e a plena consciência de que está ali porque o mundo decidiu redescobrir sua arte.

Como presente final, veio “Anna Maria”, música extra que não tem aparecido de forma consistente nas setlists da turnê, mas que também foi tocada na Argentina.

Na estreia tão aguardada, o Bôa abraçou sua história com afeto e potência, deixando um convite: o de enxergar o futuro da banda com a mesma devoção com que se celebra seu passado.

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