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ESPECIAL | Streetwise, de Pretty Sick, completa um ano como trilha sonora da juventude urbana

Começar aos 13 não é para qualquer um. Ter contrato com gravadora aos 15, menos ainda. Mas essa é a trajetória de Sabrina Fuentes, conhecida por Pretty Sick. E vamos combinar: alguém que está na ativa há tanto tempo já não deve tantas explicações pra ninguém. Foi pensando assim que nasceu Streetwise, EP lançado há um ano, em 27 de junho de 2024.

Reprodução / Jake Erland

Agora, aos 24 anos, Sabrina é tudo ao mesmo tempo: vocalista, baixista, modelo, compositora e cronista não-oficial da juventude urbana. Mas diferente dos trabalhos anteriores, onde a melancolia e o caos vinham carregados em guitarras sujas e letras rasgada típicas do grunge e indie rock que guiavam sua sonoridade, aqui ela troca o peso pelo beat — e cria um universo onde o eletrônico e o romântico do dream-pop coexistem em um equilíbrio instável, mas fascinante.

Um ano depois, o trabalho ainda soa como uma virada de chave definitiva. Com apenas seis faixas e pouco mais de 17 minutos, Streetwise é um passeio pelas ruínas sonoras da juventude: aqui, a sujeira do grunge nova-iorquino que Sabrina conhece de cabo à rabo dá lugar aos sintetizadores saturados, texturas digitais e batidas que ecoam mais os clubes underground de Londres do que qualquer porão barulhento do Brooklyn. E tudo isso sem perder de vista os temas que sempre definiram o projeto: a dor de crescer, a busca por identidade e o charme melancólico de quem já viu demais desde muito cedo (fãs de Skins, vocês vão entender).

Se em Makes Me Sick Makes Me Smile (2022) Sabrina exorcizava seus demônios mais íntimos, em Streetwise ela parece estar dançando com eles. A mudança de sonoridade, fruto da colaboração com o produtor Woesum, veio de forma natural. “Passei a frequentar mais festas e raves do que shows de banda. Essa mudança veio organicamente”, disse ela em entrevista à Paper.

Passado um ano, analisando a recepção do trabalho, conclui-se que Streetwise não foi feito para agradar todo mundo. É como aquela noite que começa promissora, passa por um surto, um beijo inesperado, um momento de silêncio olhando pra cidade — e termina com você tentando lembrar se foi tudo real mesmo. É confuso? Pode até ser. Mas é também o trabalho mais honesto e instintivo de Pretty Sick até agora.

A energia colaborativa com Woesum, somada ao momento de vida mais leve que ela viveu em Londres, transformou o modo como compõe. “Foi a primeira vez que não escrevi tudo sozinha antes de entrar no estúdio. O processo foi super livre, deixamos as ideias acontecerem”, contou. E é justamente esse “deixar rolar” que é o coração do EP.

Não é o tipo de disco que nasce pra ser “um marco”, mas sim uma quebra estilística — tipo picotar o cabelo e se ver completamente outra pessoa. Sabrina mesma canta em “Streetwise”:

“Cities are like people and people always change / The only home I ever knew was the sound of my name…”

Tem que ser audacioso.

Recentemente na estrada com beabadoobee, como convidada na turnê Space In Between pela América do Norte em 2025, Fuentes tem se divertido no palco — e esse espírito de “foda-se, bora zoar” pulsa em cada compasso do EP. Essa virada não é um rompimento. É uma reinvenção repleta de autoconsciência.

Faixa por faixa

A jornada começa com “Tried and True”, uma pedrada eletrônica que acalma os fãs do grunge, mas logo os empurra pra uma nova direção:

“Don’t you think about me / When all I do is think about you”, canta ela, envolta em sintetizadores pegajosos. A sensação é de alguém que ainda tenta manter o controle, mesmo já sabendo que vai perder — como quem liga bêbada para o ex às 4 da manhã (rs).

“Violet” é a imagem perfeita da delinquência romântica. Uma música de festa suada, que exala sexo, êxtase e magia. Sabrina se apresenta como uma “vadia sexy” e convida a entrar em seu transe. Um beat grudento. Um beijo quente. Atmosfera bem construída, quase cinematográfica. “Veja a mágica, dance a mágica.” A vibe é essa.

“Headliner” brinca com a linguagem: começa com uma batida falha, tipo beatbox gravado no celular, e evolui para um dream-pop sujo e erótico, em que ela declara: “I master bass lines on the track”. Um trocadilho nada inocente para sua autoconfiança recém-descoberta. 

“Miami”, por sua vez, soa como a manhã seguinte: melodia etérea acompanhada de ressaca emocional. Bonita, mas deslocada — quase quebra o ritmo. “With You” flerta com o drama romântico de trilha de filme indie. Ambas desaceleram tanto que quase derrapam, mas escapam de cair no tédio pela sinceridade e melancolia que ainda ecoam da Sabrina de antes.

A faixa-título, “Streetwise”, fecha o EP com o pé na porta. Com versos como:

City is a playground and I wanna explore

Ci-ci-city is a playground and I wanna explore

Ju-ju just want it to rock, just want it to have fun

Got the whole crowd asking, “Are you gonna play “Dumb”?”

Sabrina mostra que sabe exatamente o que está fazendo e que não tem medo de frustrar expectativas. 

Um EP feito de fases — como quem vive

O que poderia soar como bagunça ou crise de identidade é, na verdade, só juventude em estado bruto. Sabrina viveu o suficiente pra saber que mudança assusta, mas também liberta. Cortar o cabelo, trocar de cidade, testar um som novo… Tudo faz parte.

“Ci-ci-city is a playground and I wanna explore”, repete Sabrina, com uma energia meta e 100% autoconsciente. Essa não é só uma música: é uma declaração. Ela sabe que os fãs querem o velho Pretty Sick. Mas agora, é hora de fazer o que ela quer.

Não à toa, o clipe de “Streetwise” mistura cenas espontâneas de festas em Tóquio, Londres, Miami e Nova York. Um retrato fiel da nova Pretty Sick: livre, leve e completamente dela.

Streetwise é sobre isso: experimentar, errar, rir, amar, exagerar, dormir pouco, sentir muito. É sujo, é confuso, é sincero. É um projeto que celebra o instante. Não quer ser atemporal. Quer ser o agora.

Se você quer entender onde o alternativo tá indo, ouve esse EP de novo. Se já ouviu, ouve com outros ouvidos. E se nunca ouviu… bom, o mundo da música também é um playground. Vai lá explorar.

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