Dona de uma das vozes mais sinceras da nova cena pop, Breezia fala sobre identidade, traumas, interior, coragem e seu novo álbum – um disco-narrativa nascido do luto e da liberdade.

Quando a gente pensa em recomeçar, muitas vezes imagina um ponto de virada, um rompimento brusco, um corte. Mas, às vezes, o recomeço pode soar mais como “voltar pra casa”, mesmo que essa casa nunca tenha sido pisada antes. Para Breezia, cantar em português foi exatamente isso. “O que eu fazia antes era bonito, mas agora sou eu. É verdadeiro”, ela diz.
Fabrizia, mais conhecida como Breezia, nome artístico que parece ter nascido com ela, começou sua caminhada musical ainda adolescente, numa casa no interior de São Paulo, em Guaratinguetá. Fazia tudo sozinha, compondo e produzindo no quarto, cantando em inglês, com letras que soavam distintas e distantes, mas que, no fundo, eram tentativas de viver emoções que ainda não tinha conhecido de verdade. “Eu escrevia sobre me apaixonar antes mesmo de ter me apaixonado. Era performático. Era bonito, mas não era o que eu sentia.”
Na época, suas maiores referências vinham de fora: King Princess, pela ousadia e pelo orgulho de ser lésbica; Lorde, pelo lirismo adolescente e melancólico que flerta com a escuridão; e Harry Styles, pela leveza pop e o jogo de palavras. “O Harry me ensinou muito sobre brincar com o inglês na escrita. Mas eu também era muito fã de One Direction, então acho que tinha essa ligação emocional com tudo isso.”
E naquele contexto, cantar em inglês fazia total sentido. Era como um escudo, mas também desejo de pertencimento. Mas aos poucos, cantar em outra língua começou a soar como narrar a história de outra pessoa. “Tinha uma época que parecia que todo mundo só conseguia compor se fosse traduzido do inglês. As estruturas não batiam. Ficava estranho. Faltava algo que fosse de verdade, que viesse da vivência.” E foi nesse ponto que veio a virada: Breezia abandonou o inglês, assumiu a própria voz, e começou a escrever em português.
Uma nova fase: mais sincera, mais próxima
A transição pro português não foi só sonora – foi pessoal, emocional e, em certa instância, existencial. Ao cantar na própria língua, Breezia não só começou a ser compreendida, mas também a se compreender.
Nesse novo território, ela passou a se aproximar de outras referências nacionais, mais próximas da sua história. “Hoje, minhas maiores inspirações são pessoas que eu conheço. Isso me dá um orgulho enorme. Tipo a Bea Duarte, que é minha amiga, e o Number Teddie, que me deu coragem de escrever sem medo de ser chocante. Também tem o Conraddo, que tá no mesmo selo que eu agora. Eu sou muito fã do que ele faz.”
Ao contrário da fase anterior, onde as emoções vinham de idealizações, agora tudo parte da vivência da artista. Luto, deslocamento e dores que fazem parte de lugares reais. “Eu tô fazendo um álbum que é, basicamente, a história de um luto em vida. Sobre o momento em que você entende que aquilo que mudou, mudou pra sempre. Não tem volta.”
O disco está em produção há alguns meses, com sessões intensas no estúdio que ela frequenta religiosamente, ao lado do produtor Marmitt — que também virou amigo. “A gente se conheceu porque uma amiga minha usou um sample de uma música minha, ele ouviu e me chamou. No mesmo dia, eu ia pra São Paulo com a minha namorada. A gente se encontrou, bateu a conexão, e nunca mais parou.”
Sobre o processo criativo, Breezia comenta: “[..] as ideias surgem quando eu tô sozinha. Andando, no banho, na rua. A maioria das músicas que eu já fiz nasceram em momentos assim, muito íntimos.”
Do Vale para a cidade grande
Ao falar sobre as origens, Breezia sempre deixa claro que o Vale do Paraíba ainda mora nela. E apesar de São Paulo ter sido o palco onde sua música começou a ser levada a sério, ela não esquece de onde veio — nem romantiza a vida de artista no interior. “Guará é minha raiz. Eu amo aquele lugar. Mas lá, o que eu fazia era visto como piada. Só quando eu vim pra cá, minha arte passou a ser respeitada.”
Ela fala também sobre o isolamento artístico na região, sobre as cenas que não se conversam e nichos que se atacam. “Ao invés de todo mundo se unir, cada um ficava no seu canto. Se eu canto pop e o outro canta trap, parece que não pode se misturar. E isso mata a arte.”
Essa falta de apoio local fez com que a internet virasse sua grande aliada. Foi nela que Breezia encontrou público, trocas, validação e também foi o que a levou até seu produtor e selo.
Orgulho que não se esconde
Breezia é lésbica. Breezia é não-binário. E Breezia não vai deixar que ninguém apague isso. No mês do orgulho, sua fala sobre identidade não vem no diminutivo. É escancarada, corajosa e consciente. “Eu sou escandalosamente lésbica. E eu sempre digo: nada nesse mundo é tão bonito que uma lésbica não-binário não possa melhorar (risos).”
Mas não foi fácil chegar até aqui. “Durante muito tempo, eu não tinha coragem nem de cantar sobre mim. Eu não entendia. Cresci num ambiente religioso, onde tudo isso era pecado. Primeiro veio me assumir lésbica, depois entender a questão de gênero. Foi um processo.”
Na música, sua identidade se reflete naturalmente. Às vezes usa ambos os pronomes, outras vezes flui de forma neutra. “Meu produtor entendeu isso. Ele me perguntou: você se sente bem com roupa masculina ou feminina? E eu disse: eu me sinto bem com roupa. Só isso.”
Actually, my name is Breezia
Apesar do crescimento, Breezia ainda enfrenta desafios de ser artista independente no Brasil. “Fazer música é caro. Só uma sessão de estúdio custa mil, dois mil reais. Se eu não tivesse encontrado o Marmitt, não teria como continuar.”
Ela também sente o peso de ser constantemente comparada. “Sempre falam que eu sou a nova Rita Lee, ou a nova não sei quem. Mas eu não quero ser a nova ninguém. Eu sou a Breezia.” E quando escuta que suas músicas “nem parecem em português”, ela rebate: “Isso é quase ofensivo. A nossa língua é linda, difícil, rica. Como alguém que fala inglês fluentemente, eu digo com certeza: o português é muito mais poderoso.”
O que vem aí?
O novo álbum ainda está em construção, mas promete ser ousado. Mistura rap, instrumentos inusitados, vinis antigos e sonoridades achadas no acaso. “Eu trouxe um saxofone em uma faixa e os ouvintes mais jovens ficaram chocados. Ninguém esperava ouvir sax numa música pop nova. Mas é isso: a gente experimenta, mistura. O Marmitt vem com referências mais diversas, eu trago coisas de gente cronicamente online.”
Breezia sonha em estar em festivais, cantar para multidões. “Um sonho meu agora é tocar em festival. Cantar pra muita gente. Eu cresci vendo isso acontecer com outros artistas. Quero muito que um dia seja eu”, revela.
Mas tudo no tempo certo. Por enquanto, o foco é seguir sendo fiel à própria história. “Esse álbum é sobre mim. Sobre perdas, despedidas, mudanças. É a minha forma de processar um luto que não é de morte — mas de vida.”
Se você se interessou, fica o convite: acompanhe Breezia no Instagram, ouça nas plataformas digitais e faça parte dessa jornada que é tão coletiva quanto pessoal.

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