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Resenha | A anatomia do medo: Manger Cadavre? grita contra os monstros do agora em novo disco

É difícil apontar o momento exato em que os monstros começaram a tomar forma. Talvez quando passamos a naturalizar o absurdo, quando trocamos o diálogo por notificações ou quando esquecemos que o medo também pode ser uma prisão. É justamente sobre isso que trata Como Nascem os Monstros, que já está se consolidando como um dos trabalhos mais importantes do metal extremo nacional em 2025.

Capa do álbum Como Nascem os Monstros. Ilustração por: Bárbara Gil.


O disco, lançado em fevereiro, tem a porrada esperada de uma banda que já mostrou que não veio pra massagear o ego de ninguém, mas também traz uma produção mais lapidada e momentos que mostram uma Manger Cadavre? que sabe muito bem onde está e para onde quer ir.


Com 12 faixas e 45 minutos de um peso que não alivia, o disco é uma síntese do que a banda construiu desde 2011: som bruto, letras afiadas e uma inquietação cada vez mais latente, que nunca dorme. A produção está mais lapidada, com uma mixagem que respeita a crueza das composições, mas evidencia o talento e papel individual de cada integrante e que, acima de tudo, não deixa que a urgência sonora atropele a intenção desse trabalho.


O resultado consegue, ao mesmo tempo, soar brutal e convidativo. E é inegável que este álbum tem um papel estratégico e poderoso na trajetória da banda: ele abre portas para novos públicos sem abrir mão da postura combativa que sempre guiou o projeto. Para quem ainda não está familiarizado com o som extremo, esse pode ser o disco ideal para entrar no universo da Manger.


Dito isto, é preciso reconhecer a evolução aqui. Em vez de repetir fórmulas, a banda entrega algo mais coeso, com arranjos mais trabalhados e composições que funcionam tanto nos palcos quanto no fone de ouvido.


Como Nascem os Monstros não foge da raiva — e nem do medo. O disco é um mergulho tenso e claustrofóbico nas formas com que o medo é instrumentalizado pra manter as coisas como estão. A Manger responde à pergunta que batiza o álbum de forma quase documental: monstros nascem da apatia, do excesso de informação vazia, do sistema que nos engole e da sociedade que normaliza o absurdo.


Desde a introdução instrumental “Insônia”, a atmosfera é tensa, e não demora muito para a banda mostrar a que veio com “Engaiolados” e “Obsolescência Programada”, que equilibram velocidade, peso e crítica social com precisão. O ponto de virada vem com a faixa-título, que não só sintetiza o conceito do disco, como também estabelece o tom de angústia que o permeia: o medo como forma de controle. Medo que paralisa, consome, aliena e alimenta.


Ao longo do álbum, o tema vai se desdobrando em diferentes formas: o impacto psicológico das redes sociais (“Paralisia”), a farsa das promessas neoliberais (“Terceira Onda”) e a inevitável degradação de tudo ao nosso redor, como em“Câncer do Mundo (Capitalismo)”. Mas não espere didatismo. A Manger entrega suas mensagens de forma afiada, numa linguagem que convida à reflexão sem abrir mão da agressividade.


O álbum se encaminha para o final em “Murmúrio” e “Retórica do Silêncio”, com a sensação de agonia arrastada, refletindo o esgotamento de um tempo em que se fala demais, mas se diz muito pouco. Para fechar, temos “Abutres”, uma faixa que fecha o ciclo sem aliviar a tensão. E assim como os monstros que denuncia, esse disco não some com o fim da última música — ele fica, fermenta, cutuca. Porque talvez o maior trunfo da Manger Cadavre? seja justamente esse: nos lembrar de que o verdadeiro terror é viver anestesiado.

O lançamento é uma parceria com Vertigem Discos, Brado Records, Helena Discos e BC Noise Records. Para comprar o CD, basta acessar a loja online da banda clicando aqui.

mais sobre Manger Cadavre?


Foto por: Dani Moreira (@danimoreirafotografia).

Formada por Nata Nachthexen (vocal), Paulo Alexandre (guitarra), Bruno Henrique (baixo) e Marcelo Kruszynski (bateria), a banda é um dos nomes mais ativos da cena extrema brasileira. Vinda do Vale do Paraíba, interior de São Paulo, a Manger nunca deixou de rodar estrada, com direito a turnê pela América Latina, presença em festivais consolidados e até um show no icônico Obscene Extreme Festival, na República Tcheca. Um feito que poucas bandas independentes conseguem alcançar — e que eles conquistaram no braço.

A Manger Cadavre? segue sendo exemplo de banda que batalha, que respeita e fortalece a cena, e que agora está colhendo frutos mais do que merecidos.

Escute Como Nascem os Monstros no Spotify:

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