É difícil apontar o momento exato em que os monstros começaram a tomar forma. Talvez quando passamos a naturalizar o absurdo, quando trocamos o diálogo por notificações ou quando esquecemos que o medo também pode ser uma prisão. É justamente sobre isso que trata Como Nascem os Monstros, que já está se consolidando como um dos trabalhos mais importantes do metal extremo nacional em 2025.

O disco, lançado em fevereiro, tem a porrada esperada de uma banda que já mostrou que não veio pra massagear o ego de ninguém, mas também traz uma produção mais lapidada e momentos que mostram uma Manger Cadavre? que sabe muito bem onde está e para onde quer ir.
Com 12 faixas e 45 minutos de um peso que não alivia, o disco é uma síntese do que a banda construiu desde 2011: som bruto, letras afiadas e uma inquietação cada vez mais latente, que nunca dorme. A produção está mais lapidada, com uma mixagem que respeita a crueza das composições, mas evidencia o talento e papel individual de cada integrante e que, acima de tudo, não deixa que a urgência sonora atropele a intenção desse trabalho.
O resultado consegue, ao mesmo tempo, soar brutal e convidativo. E é inegável que este álbum tem um papel estratégico e poderoso na trajetória da banda: ele abre portas para novos públicos sem abrir mão da postura combativa que sempre guiou o projeto. Para quem ainda não está familiarizado com o som extremo, esse pode ser o disco ideal para entrar no universo da Manger.
Dito isto, é preciso reconhecer a evolução aqui. Em vez de repetir fórmulas, a banda entrega algo mais coeso, com arranjos mais trabalhados e composições que funcionam tanto nos palcos quanto no fone de ouvido.
Como Nascem os Monstros não foge da raiva — e nem do medo. O disco é um mergulho tenso e claustrofóbico nas formas com que o medo é instrumentalizado pra manter as coisas como estão. A Manger responde à pergunta que batiza o álbum de forma quase documental: monstros nascem da apatia, do excesso de informação vazia, do sistema que nos engole e da sociedade que normaliza o absurdo.
Desde a introdução instrumental “Insônia”, a atmosfera é tensa, e não demora muito para a banda mostrar a que veio com “Engaiolados” e “Obsolescência Programada”, que equilibram velocidade, peso e crítica social com precisão. O ponto de virada vem com a faixa-título, que não só sintetiza o conceito do disco, como também estabelece o tom de angústia que o permeia: o medo como forma de controle. Medo que paralisa, consome, aliena e alimenta.
Ao longo do álbum, o tema vai se desdobrando em diferentes formas: o impacto psicológico das redes sociais (“Paralisia”), a farsa das promessas neoliberais (“Terceira Onda”) e a inevitável degradação de tudo ao nosso redor, como em“Câncer do Mundo (Capitalismo)”. Mas não espere didatismo. A Manger entrega suas mensagens de forma afiada, numa linguagem que convida à reflexão sem abrir mão da agressividade.
O álbum se encaminha para o final em “Murmúrio” e “Retórica do Silêncio”, com a sensação de agonia arrastada, refletindo o esgotamento de um tempo em que se fala demais, mas se diz muito pouco. Para fechar, temos “Abutres”, uma faixa que fecha o ciclo sem aliviar a tensão. E assim como os monstros que denuncia, esse disco não some com o fim da última música — ele fica, fermenta, cutuca. Porque talvez o maior trunfo da Manger Cadavre? seja justamente esse: nos lembrar de que o verdadeiro terror é viver anestesiado.
O lançamento é uma parceria com Vertigem Discos, Brado Records, Helena Discos e BC Noise Records. Para comprar o CD, basta acessar a loja online da banda clicando aqui.
mais sobre Manger Cadavre?

Formada por Nata Nachthexen (vocal), Paulo Alexandre (guitarra), Bruno Henrique (baixo) e Marcelo Kruszynski (bateria), a banda é um dos nomes mais ativos da cena extrema brasileira. Vinda do Vale do Paraíba, interior de São Paulo, a Manger nunca deixou de rodar estrada, com direito a turnê pela América Latina, presença em festivais consolidados e até um show no icônico Obscene Extreme Festival, na República Tcheca. Um feito que poucas bandas independentes conseguem alcançar — e que eles conquistaram no braço.
A Manger Cadavre? segue sendo exemplo de banda que batalha, que respeita e fortalece a cena, e que agora está colhendo frutos mais do que merecidos.
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